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Guerra do Iraque

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.11.07

“Portugal fez bem em juntar-se aos nossos Aliados na guerra contra o Iraque.” Foi o que eu percebi das palavras do actual Presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro ministro do nosso país, Durão Barroso. Também me pareceu que quis dizer que não devíamos lamentar a decisão de apoiar esta guerra, mesmo depois de vermos que “correu muito mal”… e vejam o raciocínio para não assumir o erro… que “agora é fácil dizer (?) que foi um erro”, que na altura até tinha falado com Clinton…

Bem, a decisão foi política, do governo, de Durão Barroso. Tem de o assumir.

Nem todos os cidadãos portugueses partilhavam dessas certezas… e muitos analistas e especialistas em relações internacionais até revelaram as suas reservas. A maioria já antecipava, na altura, que iria “correr muito mal”. É só ler os jornais da época. Eu li e lembro-me.

Que era uma decisão complicada era. Mas de nada vale tentar justificar-se agora. Há que assumir o erro.

Na altura juntei-me à multidão em Lisboa. E houve multidões idênticas pela Europa. E na América também. Geralmente quem quer evitar uma guerra ou promover a paz é logo conotado de “pacifista” para querer dizer ignorante ou irresponsável. Mete-se tudo no mesmo saco.

Mas não é assim. Aquela guerra tinha contornos esquisitos. Baseava-se em indícios e histórias mal contadas. E havia sempre a questão do petróleo.

Recentemente vi um documentário, na SIC Notícias, que me deixou horrorizada. Um jovem soldado americano veio paraplégico do Iraque. É a família que cuida dele com o apoio de uma enfermeira fisioterapeuta. Um voluntário da comunidade vem animá-lo com canções country pois sente-se muito deprimido. Outro jovem soldado veio medalhado, quer casar e é a comunidade que o vai ajudar financeiramente. Fora os que não voltam. Nomes gravados numa parede, num memorial.

A memória devia servir para evitar situações destas. Não para propagandear mais guerras. De que lhes serve serem heroes? Toda uma geração de jovens sacrificada! Para não falar da guerra do Golfo, do Vietname, da Coreia…

E nós também não fomos poupados. É doloroso rever as imagens da guerra colonial no magnífico programa de Joaquim Furtado. Preservar a memória é fundamental. Estas imagens marcaram a minha infância e a minha adolescência. Há lá coisa mais triste do que ver na televisão, na altura do Natal, os soldados portugueses a desejarem “Boas Festas” às famílias? Feliz Natal e até ao meu regresso?...

Fiquei muito comovida ao ver, num programa sobre o Dia do Armistício em Inglaterra, um veterano centenário da 1ª Guerra Mundial e único ainda vivo, aconselhar: mantenham os jovens longe disso…

A guerra é demasiado triste…

 

publicado às 12:19

OE 2008: o modelo de desenvolvimento do governo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.11.07

Pelos resultados visíveis, nestes dois anos e meio, e pelas conclusões do debate do orçamento no Parlamento, segundo percebi eis aqui o modelo de desenvolvimento do governo:

  • um Estado forte e autoritário, o tal “monstro do Estado que continua a engordar”;
  • o cidadão existe enquanto contribuinte e é refém do Estado até às gerações futuras;
  • a classe média desaparece e passa a remediada, aumentando-se a distância entre ricos e pobres;
  • Lisboa é o centro do país e das decisões, “o resto é paisagem”;
  • desistiu-se do interior “e Viva España”;
  • privilegiam-se os grandes negócios em detrimento das pequenas e médias empresas.

E o modelo de governação:

·        ser um bom aluno de Bruxelas, a quem se quer agradar, mesmo à custa de dois milhões de pobres no país;

·      entretanto, para o país: anúncios, propaganda, criação de expectativas, através de medidas avulsas cujos resultados ainda estão por avaliar.

Será assim tão difícil encontrar respostas criativas para conciliar controlo da despesa com investimento e crescimento económico?

Será assim tão difícil cortar na despesa onde se prometeu cortar e deixar de ir ao bolso do cidadão?

Será assim tão difícil perceber que se não se investir a economia não arranca?

 

 

publicado às 15:35

Ministra da Educação sem os professores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.11.07

“Grande Entrevista” de Judite de Sousa, RTP 1, na 5ª feira, dia 1, com a ministra da Educação:

À pergunta da jornalista, de liderar uma classe que não está com ela, responde: “Os professores não precisam de estar comigo. Os professores devem estar com os alunos.” Se um administrador ou gestor de uma empresa privada admitisse isto, seria logo dispensado. Liderar e gerir recursos humanos sem conseguir passar a mensagem? Sem os conseguir mobilizar?

A Ministra inicia invariavelmente as suas respostas às perguntas da jornalista com a frase: “Isso não é verdade…”

Há três palavras que enervam a Ministra (embora tenha disfarçado muito bem): “CDS/PP”, “sindicatos” e “Procurador Geral da República”.

CDS/PP: não têm razão. “Este Estatuto do Aluno é mais exigente do que o anterior.”

Sindicatos: à pergunta da jornalista, se os via como “forças de bloqueio”, que não. “Eles têm uma perspectiva, eu tenho outra.”

Procurador Geral da República: “Preocupa-se demais.” E desenvolveu argumentos como: a violência é pouco significativa e localizada, a escola tem condições de gerir a disciplina, conhece os seus alunos e a realidade envolvente. Tudo a ver com a tal autonomia das escolas.

De resto, diversas tentativas de revelar um lado diplomático e até empático, metendo a propósito da redução do abandono escolar, o seu papel de “mãe” e o facto de olhar para as estísticas como “pessoas”… aqui referindo-se aos alunos. E será que para a Ministra os professores em situação precária também são “pessoas”?

A meu ver, que tenho observado esta situação há uns tempos:

A Ministra cilindrou o estatuto e o prestígio dos professores. E com eles, a sua autoridade, a sua competência, a sua confiança. Sabem aqueles desenhos animados em que passa um cilindro por cima do boneco e ele fica espalmado como uma folha de papel? E mesmo que agora argumente com a estabilidade na sua colocação: e a estabilidade psicológica? E a esperança numa carreira? Se lhes retira o futuro, onde fica a motivação? Pegando na frase de Amaral Dias: “Enquanto há esperança há vida”.

Em relação à indisciplina dos alunos e de a escola supostamente ter agora meios ou ferramentas para a gerir: seria bom ouvir os professores. É que, com o clima criado, a insegurança a nível psicológico, a desconfiança na classe que irá gerar conflitos, os professores temem vir a ser responsabilizados pela indisciplina nas suas aulas. Serão duplamente vítimas. Já para não falar dos que vão parar ao hospital ou vêem o seu carro riscado (como referiu o Procurador Geral da República)…

Além de tudo, o actual governo começou mal na Educação ao não investir como devia, ao cortar despesas onde não devia. Se todos concordamos, e o próprio Presidente da República o enfatizou no discurso fundamental de 5 de Outubro, colocando a Educação como uma prioridade nacional, como é possível que o actual governo a tenha colocado na rota dos cortes orçamentais?

O actual primeiro-ministro disse-o claramente, numa entrega de diplomas recente creio, em que foi acompanhado pela Ministra da Educação, que “não é uma questão de dinheiro!”

Se não se investe na Educação, investe-se em estudos consecutivos para impor a Ota, derrapagens em obras públicas, iniciativas publicitárias, marketing no estrangeiro, tecnologia de ponta para as secretas…

 

publicado às 14:51

O que define a nossa humanidade - 2

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.11.07

Um grupo amarra um homem de pés e mãos e abandona-o ali, toda a noite. Será encontrado de madrugada, morto. Uma especialista de Psicologia Social é convidada por um telejornal das 20,00 para explicar “o caso”. Fala, entre outras coisas, de “consciência alterada”, “pressão do grupo” e que até podem ser “boas pessoas” mas que em situação grupal, são “outras pessoas”. (Bem, as pessoas agem de forma diferente conforme as situações, chama-se a isso os diferentes papéis sociais, mas não se transformam noutras pessoas!)

Se esta explicação nos servisse, logo que o grupo debandou deixando a vítima ali, presa, indefesa, à sua sorte, não haveria uma “pessoa” que voltasse para trás, já fora da pressão do grupo para a libertar? Ou que fosse avisar alguém? Ou até que denunciasse o grupo? Mantém-se o silêncio e a cumplicidade? O conformismo levado ao limite?

O que se passa aqui é qualquer coisa de muito mais profundo do que “consciência alterada em situação de pressão de grupo”. Há uma dissociação da própria humanidade: ausência de empatia e compaixão. E ausência de um pensamento autónomo que se traduza numa acção autónoma: voltar atrás e libertar a vítima ou avisar alguém de imediato.

A especialista propõe um treino de assertividade e Educação para a Cidadania. Em que os sujeitos podem exprimir diferentes opiniões da maioria, aprendendo assim a resistir à pressão do grupo, definindo essa capacidade como “coragem”.

De novo não serve para situações como esta. A construção da empatia e compaixão, condições básicas da nossa humanidade, inicia-se em idades muito precoces. Talvez com a primeira relação estruturante, o afecto primordial e que está na base de todas as relações futuras com os outros e consigo próprio.

É a Arno Gruen que me vou sempre socorrer para tentar entender o que se passa à nossa volta: “(…) uma perspectiva que se baseie apenas em critérios biológicos ou sociológicos não se adequa à verdade. Fromm teve toda a razão em chamar a atenção para o facto de que uma perspectiva sociológica que contemple as qualidades humanas apenas em condições ‘sociologicamente correctas’ reflecte uma ideologia do conformismo.” (em “Falsos Deuses”, Paz Editora, ed. 1997, pág. 82)

Arno Gruen refere o “processo da identificação com o agressor”, já analisado por Anna Freud e Ferenczi: “O resultado é uma estrutura de personalidade que equipara as suas tendências interiores à desobediência em relação ao poder cujo reconhecimento e louvor deseja. Ao mesmo tempo odeia tudo o que possa revelar o medo que está por detrás de tal comportamento e, com isso, a verdadeira causa do verdadeiro sofrimento. Por esta razão, as pessoas com um semelhante historial de desenvolvimento não só têm de odiar tudo o que possa conduzir à verdade, e também ao verdadeiro amor, como têm de destruí-lo. (…) Pela identificação com o agressor, uma pessoa não só interioriza o seu desprezo pelas próprias necessidades de calor, carinho e afecto como despreza o que ela própria mais necessita”. (idem, págs. 120-122)

E nesta “identificação com o agressor”, dá-se o paradoxo: “Somos a única espécie animal que desloca a direcção do seu ódio. Em vez de o dirigirmos contra o agressor e opressor, dirigimo-lo contra outras vítimas.” Como este “desamparo não pode ser aceite porque isso iria desmascarar o agressor e despoletaria de novo o medo primordial, (…) para viver com este ódio, tais pessoas têm de encontrar outros ‘fracos’ sobre os quai possam transferi-lo.”

Ainda segundo Arno Gruen, “a deslocação do ódio para um ódio contra os que consideramos fracos parte apenas de um grupo relativamente pequeno da população. No entanto este, sob a pressão de uma insegurança generalizada, pode infectar muitos com tal ódio. Primeiro porque muitos de nós estão atingidos pela obediência e, segundo, porque todos odiámos alguma vez.”

Para Arno Gruen é importante diferenciar o “ódio a agressores verdadeiros” e o “ódio de si próprio” e defende que “a influência destes portadores de ódio tem de ser restringida” e que “temos de aprender que há pessoas que odeiam no outro o que aprenderam a odiar em si próprias, a saber a sua própria necessidade de amor autêntico e de verdade. Tem de ser divulgado o facto de existirem pessoas que se desprezam por isso” (idem, pág. 124)

A reter: “A moral não advém de termos abstractos. Ela desenvolve-se a partir da capacidade de reagirmos de uma forma empática à dor e ao sofrimento no outro. A verdadeira moral começa quando sentimos que nos dói quando os nossos actos provocam dores e sofrimento a outros.”

E ainda: “A necessidade de apenas punirmos a violência, mas de não a vermos na dimensão da sua inserção na globalidade da nossa existência social, é por seu lado expressão da identificação com o agressor.” (págs. 128-129)

Dá-nos muito que pensar…

 

publicado às 14:31

O que define a nossa humanidade - 1

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.11.07

Imaginem-se de novo com dez, onze, doze anos, por aí. Depois das aulas, em vez de regressarem a casa, onde vivem com os pais ou apenas um dos pais, com irmãos ou mesmo sendo filhos únicos, também não interessa, em vez de regressarem a casa, para uma família, regressam a uma instituição, uma casa enorme, de grandes corredores, em que vocês parecem minúsculos. Imaginem o eco dos vossos passos por esses corredores… o eco das vozes de imensas crianças no refeitório… e à noite o silêncio nas camaratas…

É neste cenário, nesta casa enorme, que paira a suspeita de ainda persistirem os abusos sexuais, como alertou Catalina Pestana. É nesta casa que Pedro Namora diz entrarem e sairem à vontade os “predadores”. E agora Bagão Félix confirma a “falta de vontade política deste governo” em resolver esta situação.

Numa sociedade saudável haveria logo inquéritos, movimentações, manifestações nas ruas (lembram-se das marchas por Timor e contra a guerra no Iraque?) São as crianças mais indefesas do país! Querem causa mais urgente?

Mas não. Depois das declarações de Catalina Pestana na entrevista ao SOL, nada. Uma ou outra crónica nos jornais estranhando o silêncio. Um site na internet: http://www.rededecuidadores.org. E agora a voz isolada de Pedro Namora na comunicação social e no seu Blog.

Sintomas da doença, além deste silêncio preocupante: frases como esta, da actual Presidente do Conselho Directivo da Casa Pia: “… nenhuma casa pode dizer que é completamente segura…”. Alguém em sintonia com a sua própria humanidade conseguiria sequer dormir sem ter absoluta certeza de ver as crianças, entregues à sua responsabilidade, protegidas, naquele espaço já de si tão hostil?

Outra: “…ensinamos as crianças a defender-se dentro e fora da casa…” Ouvi bem? Fora da casa, ainda compreendo, já vi imensos filmes de acção e documentários sobre este tipo de violência: evitar locais isolados, não aceitar nada de estranhos, afastar-se de automóveis que param, etc. etc.

Mas e dentro da casa, como é? Das pessoas que lá trabalham e das que entram e saem à vontade? Estamos a falar de um adulto e de uma criança, de um poder completamente desigual… Se alguém em quem era suposto a criança confiar, a aliciar para a acompanhar, como é? A quem é que vai recorrer?

Uma sociedade que não protege os mais indefesos e cujas instituições, que deveriam substituir famílias de risco, acabam por lhes causar danos muito mais graves, físicos e psicológicos, e estamos a falar de danos vitalícios, é uma sociedade profundamente doente, em crise, em ruptura, em decadência.

Talvez José Gil, no seu ensaio sobre a “alma portuguesa”, tenha acertado no ponto essencial ao intitulá-lo “Medo de existir”. Talvez isso explique este silêncio em relação às últimas informações de Catalina Pestana e Pedro Namora.

Como cidadãos, como sociedade civil, devemos exigir a protecção das crianças. É que não se trata apenas de uma questão ética e moral. O que está em causa aqui é a própria condição básica que define a nossa humanidade: a nossa capacidade de empatia, a nossa capacidade de compaixão.

Quando leio e releio Arno Gruen, psicanalista que tem analisado as sociedades actuais, percebo a necessidade, a urgência de nos questionarmos constantemente, como país, como comunidade. É de um dos seus livros, “Falsos Deuses”, que retiro esta frase:

“O sinal de tempos deste tipo é sempre o aumento da violência contra os mais fracos, a crianças e as mulheres. (…) Reconhecermos esta violência como desprezo pelo amor é um primeiro passo para delimitarmos o desprezo. Esta luta tem de ser conduzida a partir de uma posição moral, pelo reconhecimento do sofrimento e não apenas pela punição.” (em “Falsos Deuses”, Paz Editora, ed. 1997, pág. 128)

“As soluções não são encontradas enquanto as pessoas não conseguirem aceder às suas formas empáticas da percepção. (…) Quando a convivência se basear na capacidade de empatia teremos chegado a um mundo melhor.” (idem, pág.35)

Arno Gruen é igualmente autor de dois livros editados pela Assírio e Alvim: “A Loucura da Normalidade” e “Traição do Eu”.

 

publicado às 14:27


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